Como escrever um bom conto, por Kizzy Ysatis

Muitos leitores são também escritores amadores que sonham um dia se tornarem profissionais. E algumas vezes eles se enrolam em relação às diferenças entre escrever um bom romance e um bom conto.

É fato que se você tem a mesma dúvida, provavelmente irá encontrar por aí muitos escritores que afirmam que é mais difícil escrever um conto coerente do que um romance competente.

Bom, talvez eles tenham razão.

De qualquer forma, o conto é a porta de entrada mais comum para escritores amadores.

Hoje em dia brotam coletâneas de contos em que escritores amadores podem ter sua primeira publicação.

Escritores como eu, André Vianco, Helena Gomes, Luís Eduardo Matta & cia costumam ser convidados de tais publicações, e dar-lhes justas credibilidades.

Logo, iria escrever por aqui algumas dicas sobre as diferenças entre tais estruturas para ajudar escritores aventureiros a se aprimorarem.

Entretanto, Kizzy Ysatis  já teve tamanho trabalho, e mais, o fez muito melhor do que poderia ter feito por aqui.

Logo, nada mais justo que eu publique por aqui a verdadeira aula.

Escritores aventureiros, enjoy.

 ***

 

 CONTO

Estrutura do Conto

1 – Unidade dramática

2 – Unidade de tempo

3 – Unidade de espaço

4 – Número reduzido de personagens

5 – Diálogo dominante

6 – Descrição e narração (tendem a anular-se)

7 – Dissertação (praticamente ausente)

CONTO – História completa e fechada como um ovo. É uma célula dramática, um só conflito, uma só ação. A narrativa passiva de ampliar-se não é conto.Poucas são as personagens em decorrência das unidades de ação, tempo e lugar. Ainda em conseqüência das unidades que governam a estrutura do conto, as personagens tendem a ser estáticas, porque as surpreende no instante climático de sua existência. O contista as imobiliza no tempo, no espaço e na personalidade (apenas uma faceta de seu caráter).O conto se semelha a uma tela em que se fixasse o ápice de uma situação humana.

ESTRUTURA - É essencialmente objetivo, horizontal e narrado em 3ª pessoa. Foge do introspectivismo para a realidade viva, presente, concreta.Divagações são escusadas. Breve história. Todas as palavras hão de ser suficientes e necessárias e devem convergir para o mesmo alvo. O dado imaginativo se sobrepõe ao dado observado. A imaginação, necessariamente presente, é que vai conferir à obra o caráter estético. Jamais se perde no vago. Prende–se à realidade concreta. Daí nasce o realismo, a semelhança com a vida.

LINGUAGEM – Objetiva; utilizar metáforas de imediata compreensão para o leitor; despe –se de abstrações e da preocupação com o rebuscamento.O conto desconhece alçapões subterrâneos ou segundas intenções. Os fatos devem estar presentes e predominantes. Ação antes da intenção.Dentre os componentes da linguagem do conto, o dialógo é o mais importante de todos. Está em primeiro lugar; por dramático, deve ser tanto quanto possível dialogado.
Os conflitos, os dramas residem na fala das pessoas, nas palavras ditas, não no resto. Sem diálogos não há discórdia, desavença ou mal – entendido e, sem isso, não há conflito e nem ação. As palavras como signos de sentimentos, de idéias, emoções, podem construir ou destruir. Sem diálogo torna –se impossível qualquer forma completa de comunicação. A música e a dança transmitem parcialmente tudo o que o homem sente ou pensa.

O meio ideal de comunicação é a palavra, sobretudo na forma de diálogo. O diálogo é a base expressiva do conto: diálogo direto, indireto e interior.No conto, predomina o diálogo direto que permite uma comunicação imediata entre o leitor e a narrativa.Se usado diálogo indireto em excesso, o conto falha ou é de estreante. Diálogo interior: trata –se de um requintado expediente formal, de complexo e difícil manuseio.

Outro expediente lingüístico é a narração, que deve aparecer em quantidade reduzida, proporcional ao diálogo. Os escritores neófitos ou inexperientes usam e abusam da narração, por ser um recurso fácil, que prescinde das exigências próprias do diálogo. É um recurso que tende a zero no conto. A descrição ocupa semelhante lugar na estrutura do conto. Está fora de cogitação o desenho acabado das figuras. Ao contrário, o conto não se preocupa em erguer um retrato completo das personagens, mas centram –se nos conflitos entre as personagens. A descrição da natureza, ou do ambiente, ocupa ainda mais modesto, pois o drama expresso pelo diálogo, dispensa o cenário. O drama mora nas pessoas, não nas coisas e nem na roupagem. A descrição completa-se com 2 ou 3 notas singelas, apenas para situar o conflito no espaço.

TRAMA – Linear, objetiva. A cronologia do conto é a relógio, de modo que o leitor vê os fatos se sucederem numa continuidade semelhante à vida real.O conto, ao começar, já está próximo do epílogo. A precipitação domina o conto desde a primeira linha.No conto, a ação caminha claramente à frente. Todavia, como na vida real, que pretende espelhar, de um momento para o outro deflagra o estopim e o drama explode imprevistamente. A grande força do conto e o calvário dos contistas consiste no jogo narrativo para prender o interesse do leitor até desenlace, que é, regra geral, um enigma.O final enigmático deve surpreender o leitor, deixar – lhe uma semente de meditação ou de pasmo perante a nova situação conhecida.A vida continua e o conto se fecha inseqüente. Casos há em que o enigma vem diluindo no decorrer do conto. Neste caso ele se aproxima da crônica ou corresponde a episódio de romance.

FOCO NARRATIVO – 1ª e 3ª pessoas. O conto transmite uma única impressão ao leitor.Começo e epílogo: O epílogo do conto é o clímax da história. Enigmático por excelência, deve surpreender o leitor. O contista deve estar preocupado com o começo, pois das primeiras linhas depende o futuro do resto, do que terminar. O começo está próximo do fim. E o contista não pode perder tempo com delongas que enfastiam o leitor, interessado no âmago da história. O início é a grande escolha. O contista deve saber como começar, o romancista.A posição do leitor diante do conto é de quem deseja, às pressas, desentediar – se. Ele procura no conto o desenfado e o deslumbramento perante o talento que coloca em reduzidas páginas tanta humanidade em chama.O contista sacrifica tudo quanto possa perturbar a idéia de completude e unidade.

CONCLUSÃO – A narrativa passível de ampliar-se ou adaptar-se a esquema diversos, ainda que o seu autor a considere, impropriamente, não pode ser classificada de conto.

Faça uma boa revisão antes de mandar e dê para alguém ler, alguém que seja honesto, de sua confiança e que saiba criticar; não vale ser a mãe (mãe sempre elogia).

Comentários

23 respostas to “Como escrever um bom conto, por Kizzy Ysatis”

  1. E.M. Silva on setembro 19th, 2009 6:54 pm

    Adorei estou começando a escrever contos e não tinha muita idéia se estava no caminho certo, agora com essas dicas vou evoluir com certeza.
    Muito Obrigado.

  2. Silvia Regina on março 11th, 2010 8:27 am

    Quero agradecer pelas dicas essenciais para quem
    está começando a escrever contos.
    Da mesma maneira que me esclareceram algumas dúvidas, sei que ajudarão outros escritores iniciantes também.
    Muito obrigada.

  3. vitor on março 17th, 2010 6:06 pm

    adorei as dicas sao muito boas !!! parabens !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  4. Manoel Amaral on abril 4th, 2010 5:39 pm

    Comecei a escrever contos há muito tempo, mas até hoje estou aprendendo alguma coisa nova.
    Muito bom o seu trabalho Raphael.

    Abraços.
    Manoel

  5. tamara on maio 1st, 2010 8:31 pm

    não me serviu de nada nçao achei oque queria

  6. suel on maio 10th, 2010 9:45 am

    nao entende…Mais claro por favor!

  7. Andressa on junho 8th, 2010 9:03 am

    Eu tenho que escrever um conto para escola e não tenho ideia como fazer isso!
    Me ajuda porfavor…

  8. Mariana on agosto 10th, 2010 8:40 pm

    Preciso fazer um conto com o tema Adolescência: Glória e Complicação, please help me

  9. Gerardo on dezembro 13th, 2010 3:14 pm

    Valeu!
    essas dicas vao me ajudar muito

  10. Cícero Nogueira Neto on janeiro 4th, 2011 3:26 pm

    Gostei bastante.

  11. Ísis on março 3rd, 2011 11:07 pm

    Eu aprendi à muito tempo como fazer contos, foi na escola que eu aprendi, nunca dei atenção e o devido valor, agora, estou sentindo falata disto. Não entendi direito o que você escreveu, mas vou ler com calma várias vezes.

  12. vera on maio 25th, 2011 2:08 pm

    Raphael:

    Gostei muito de suas orientções, mas lhe pergunto, seria possivel vc ler o meu primeiro conto para fazer uma severa critica?caso seja possivel me contacte por este e-mail e lhe enviarei.Diga o que é necesario para isto.
    Fico muito grata
    vera

  13. Luiz Luna on setembro 7th, 2011 10:23 pm

    Hum, não acho muito boa essa definição. Pensar no conto como algo necessariamente tão objetivo é muito empobrecedor para o gênero.
    Prefiro pensar no conto somente como uma história curta.
    Isso aceita melhor as variações dentro do próprio gênero, e uma liberdade, um distanciamento dessa coisa regrada, que acho boa e essencial para o status da literatura como arte.

  14. letycia lima on setembro 10th, 2011 12:55 am

    oi,tenho que fazer um conto mais não tenho a menor idéia.esse conto tem que ter um personagem negro e o confrito tem que ser na rua,por favor me ajude,manda atraves do meu email,obrigada

  15. annabelle on outubro 28th, 2011 10:54 pm

    oi, tenho uma prova para bolsa de estudo e tenho que fazer uma redação. alguma dica???

  16. Time Traveller on maio 10th, 2012 11:54 pm

    Gostei muito das suas dicas!
    Vinha à procura de respostas mais diretas a algumas dúvidas minhas mas as suas respostas tão completas fizeram-me equacionar coisas que, apesar de naturalmente presentes em cada conto que já li, não as estava a visualizar com clareza.
    Obrigada pela partilha.
    Foi uma grande ajuda.

  17. LARA GABRIELA on junho 4th, 2012 8:53 pm

    OLÁ!

    VOU PARTICIPAR DE UM CONCURSO DE CONTOS. E GOSTARIA DE SABER SE AO IMPRIMIR E ENCADERNAR É NECESSÁRIO COLOCAR UMA CAPA E CONTRA-CAPA. O QUE É PRECISO COLOCAR PARA APRESENTAR A BANCA JULGADORA?
    GRATA!

  18. Wellington Anselmo Martins on agosto 17th, 2012 7:20 am

    Ótimas dicas!
    Tão claras quanto úteis.
    Obrigado.

  19. Felipe on setembro 26th, 2012 9:38 pm

    muito bom

  20. ariovaldo moreira coelho on novembro 6th, 2013 12:43 pm

    Muito úteis alguns conceitos sobre o tema, mas não posso deixar de concordar com o leitor Luis Lima,sobre alguns aspectos. O Conto é um gênero literário e, como tal, deve ser trabalhado dentro de princípios básicos de quem deseja agregar um minimo de arte ao seu trabalho. Conceituar o Conto como algo que deve ser medido, pesado e cronometrado, com o objetivo de desentediar e surpreender o leitor, é correr o risco de reduzi-lo a algo pequeno, indigno da sua importância dentro da literatura, aqui e além mares.

  21. Yuri Paulo on janeiro 13th, 2014 4:08 pm

    Eu tenho 16 anos e estou começando a escrever contos e poesias,em relação ao conto eu prefiro escrever contos sem diálogos constantes e com mais presença de fatos e vivências baseadas na vida real porém essa é uma característica que eu assemelho a mim mesmo não estando seguindo dogmas é dessa forma que sinto felicidade ao escrever.

  22. J. Duarte on fevereiro 8th, 2014 12:55 am

    A exemplo de outros comentaristas aqui, também discordo dessa rigidez atribuída ao conto. Sou leitor de contos, gênero de que gosto, e em vários autores de consagrado renome observo a falta de várias das regras aqui apresentadas. Como disse o Sr. Luiz Luna o conto é apenas uma história curta e a isso se deve ater. De qualquer forma, são válidas as orientações, instrutivas até, desde que o contista não se sinta obrigado por todas as referidas regras.

  23. G. Linda on agosto 6th, 2014 11:36 am

    Bem, eu não entendi eu queria era na verdade, ideias de como fazer um conto, tipo uma ideia, uma frase, um acontecimento eu não sei!! Não sou nenhuma escritora amadora não … só que tenho que fazer um trabalho de escola sabe ? Eu já sei fazer conto, não sei sobre o que fazer o conto :’(
    Mas se eu ñ soubesse seria excelente esse blog !

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