Dragões de Eter - Resenha Multiversos Editorial
E mais uma resenha, dessa vez escrita por Carlos Rocha para o blog do Multiversos Editorial.
O link original pode ser conferido no http://www.multiversos.net/blog2.php
Achei o texto do autor muito interessante, e bem escrito. Espero que a maioria concorde comigo.
Enjoy.
Dragões de Éter - Caçadores de Bruxas.
Publicado em 2007 pela editora Planeta, pelo jovem autor estreante e roteirista Raphael Draccon, um livro que prometeu criar um universo que resgatasse o espírito juvenil da série animada cultuada nos anos 80, Caverna do Dragão. Cabe aos leitores conferirem, mas em minha opinião, o livro oferece um outro tipo de estória, divertida, sombria e instigante e que destrói e reconstrói personagens familiares ao nosso imaginário coletivo.
Como Raphael Draccon furou a fila.
Soube deste livro através de uma divulgação na Internet, há alguns meses. Chegando ao site oficial de divulgação da obra, pensei: “mais um autor de Fantasia Nacional conseguindo publicar… Que bom! E, é claro, mais um livro para minha concorrida fila de leitura”. Como de costume, fiz minhas malas para participar do EIRPG e especialmente do Fantasticon. Minha primeira atividade no evento foi participar de encontro do GELF, Grupo de Estudos de Literatura Fantástica, presidido pela criadora do GELF, a carismática escritora Rosa Rios. O tema foi “Contos de Fadas: Arquétipos e Fantasia através dos séculos” e fizemos leitura e discussão de textos relacionados a contos de fadas. (para detalhes, nada melhor que ler o relatório no Blog da Rosana). Acontece que o quinto texto, era justamente extraído o livro Dragões de Éter e os comentários da Rosana foram responsáveis pela “furada de fila” da obra do Raphael. Assim, saí do evento com uma cópia adquirida que já comecei a ler durante minhas férias, tendo passado por São Paulo, Ubatuba e Paraty.
O Livro
Dragões de Éter – Caçadores de Bruxas - se passa em uma terra fantástica chamada Nova Ether, um mundo sem deuses, mas repleto de Semideuses e suas criações: Homens, trolls, anões, fadas boas e fadas corrompidas. Estas últimas ao ensinaram os segredos de magia negra às mulheres, deram origem às temíveis bruxas. Não há um protagonista na narrativa de Draccon, exceto talvez o próprio narrador, que participa ativamente da estória, abusando de seus “super-poderes” de contador de estórias, procurando sempre deixar narrativa mais instigante.
O livro é dividido em três atos e é composto por uma seqüência de capítulos curtos, o que facilita a leitura, mesmo quando se está com pouco tempo. De forma sempre alternada, somos introduzidos aos principais personagens da trama: Ariane Narin, os irmãos João e Maria Hanson, os também irmãos, príncipe Axel Branford e Anísio Branford, o pai destes, o Rei Primo Branford e mais uma dúzia de figuras importantes da cidade de Andreanne, capital do reino de Azarllum. Bom, você poderia dizer, e daí? O que este livro tem de ruim, ou de bom? Bem, eu diria, vamos por etapas.
Novos contos de Fada que ora surpreendem e ora dão arrepios
Com poucos minutos de leitura, começamos a perceber, além da personalidade forte do narrador, a grande sacada desta estória. A reutilização e reformulação de personagens dos contos de fada, tais como Chapeuzinho Vermelho e o infame pirata Capitão Gancho. Além disso, há criação de novos personagens baseados no contexto de histórias de fada e outras referências da cultura pop, como jogos da série japonesa Final Fantasy. Raphael constrói com habilidade uma trama de relações entre tais personagens dando uma perspectiva menos idealizada, algumas vezes explicitando a maldade, crueldade e repugnância de seus vilões, que é usualmente mascarada e atenuada nas versões politicamente corretas de contos de fadas aos quais nos acostumamos a ver, talvez uma conseqüência da divulgação de muitos destes contos pelas animações da Disney. Em contraposição aos contos em que a morte da mãe do Bambi constituiu elemento polêmico, bruxas cruéis e piratas sanguinolentos são vilões que habitam e ameaçam a paz do reino de Arzallum e suas personagens.
Pela estrada afora, eu vou bem sozinha! Levar estes doces para a vovozinha.
Outro aspecto divertido da narrativa de Draccon, é um realinhamento lógico de acontecimentos dos contos de fada. Por exemplo, tomemos a história de Chapeuzinho Vermelho. Que mãe mandaria sua filha de nove-dez anos, atravessar uma floresta potencialmente perigosa, habitada por lobos famintos? O que uma velha senhora de idade faria morando numa casa no meio de tal floresta? Por que o lobo, tendo a oportunidade de encontrar-se com a menina, desprotegida nesta trilha, não a devoraria? Por que e iria esperá-la na casa da vovó? E quem ficaria dando explicações para tais fatos? Afinal, é apenas um conto de fadas, ora bolas! A resposta: Raphael Draccon, que se propõe a responder tais questões, sendo este um dos fatores de boa diversão contida no livro.
Adiante, o que vem?
Sinceramente não sei como está sendo a receptividade da obra de Draccon pelo público. E devo dizer, por tratar-se de uma mistura de elementos e estilos, alguns leitores poderiam não se identificar com a obra. Afinal, há momentos em que o livro parece voltado para um público adolescente, em contrapartida, há momentos em que o autor não demonstra misericórdia. Como quando os vilões aparecem para fazer seu papel, e como mencionei, a crueldade e maldade de seus atos não é mascarada. Assim, temos a contraposição de capítulos leves com romance, bom humor e ação de violência moderada, com alguns momentos na trama que classificaria como no mínimo: sombrios.
Para terminar, gostaria de ressaltar o fato de que a publicação um livro de Fantasia, da envergadura de Dragões de Éter e suas 420 páginas, por um autor estreante, em nosso país, já é por sim um grande feito.
Em segundo lugar, se forem apontados problemas ou críticas ao autor, não deixaria que isso fosse impedimento para seguir em frente. Aprendi isso quando tive uma oportunidade de contato com o incrível autor inglês, Brian Talbot, numa oficina sobre a criação de roteiros visuais para histórias em quadrinhos. O que me marcou, foi uma amostra que autor trouxe de sua primeira obra publicada. Era de fato, um trabalho bem simples se comparado com as obras maravilhosas que o Sr. Talbot vem publicando nas últimas décadas. Quando começou, não dominava todas a as técnicas, mas nunca desanimou e seguiu em frente, para tornar-se um grande autor.
Vejo em Dragões de Éter essa mesma semente. Raphael se apresenta como autor, narrando uma trama complexa, com personagens interessantes e um mundo de fantasia inspirado em contos de fada, vídeo games e cultura pop. Uma boa diversão para aqueles que se identificam com releituras de personagens e estórias de fantasia. E como história bem construída, tem seu clímax no terceiro ato, o ponto em que passei a gostar do livro e relevar meu desejo secreto para que um dos personagens da trama fosse morto: o narrador. Quem sabe no próximo livro?
Encontro Prática de Escrita: leituras, feitura e publicação.
Coordenador por Cláudio Brites, em setembro ocorrerá um interessantíssimo evento sobre literatura na Universidade Cruzeiro do Sul, em São Paulo.
Abaixo os detalhes da minha mesa, ao lado de Luís Eduardo Matta, meu companheiro de editora, e escritor que tem pensamentos e filosofias literárias parecidas com as minhas.
Como sempre, para aqueles que puderem comparecer, será um prazer.
***
Nome do evento: Encontro Prática de Escrita: leituras, feitura e publicação.
Dia: 27/09/08
Horário: 9h30 – 17h30
Local: Universidade Cruzeiro do Sul
Campus Anália Franco
Av. Regente Feijó, 1295
Bairro Jardim Anália Franco
São Paulo – SP
Editoras, Leitores, Mercado e Publicação 9h30 - 11h
Flavia Muniz, Alessandra Pires
Mediação: Octavio Cariello
Literatura de Fantasia 11h15 – 12h45
Kizzy Ysatis, Rosana Rios
Mediação: Silvio Alexandre
Literatura, Cinema e Internet 14h15 – 15h45
Raphael Draccon, Luís Eduardo Matta
Mediação: Helena Gomes
Oficinas Literárias 16h – 17h30
Marcelino Freire, Eunice Arruada
Mediação: Roberto Causo
Entrevista Raphael Draccon - Programa Musical Classe A (Rádio Bandeirantes)
Há algum tempo, cedi uma entrevista ao apresentador Roberto Palmieri, do programa de rádio “Musical Classe A”, programa de cultura, música e variedades, da Rádio Bandeirantes.
Ia colocar essa entrevista para download aqui no blog, mas o áudio está tão ruim, que eu mesmo só compreendo porque estive lá.
Logo, achei melhor fazer uma transcrição. Para aqueles que se interessarem, na época “Dragões de Éter” ainda não havia chegado às livrarias (se não me engano, ainda estava mesmo em negociações), e o interesse do entrevistador foi mais ligado ao trabalho de roteiristas no Brasil, e as diferenças nas formas de escrita entre roteiros e romances.
Enjoy.
***
PALMIERI: E não poderia ser diferente, aqui ao meu lado um dos mais notáveis escritores e roteiristas desse país. É com grande orgulho que o Musical Classe A recebe aqui, agora, o escritor e roteirista Raphael Draccon. Boa-noite, Raphael Draccon!
DRACCON: Boa-noite, Palmieri. Boa-noite aos ouvintes. Uma honra receber o convite de um programa cultural como o Musical Classe A.
PALMIERI: Muito obrigado! Raphael Draccon: qual a função de um roteirista em um filme?
DRACCON: Olha, o roteirista em um filme tem a mesma função do autor na novela de televisão. Ele quem cria a trama da história; a personalidade dos personagens; que elabora todo o enredo que vai ser filmado posteriormente por uma equipe liderada por um diretor.
PALMIERI: Como é o mercado de roteiristas aqui?
DRACCON: O mercado de roteiristas aqui é um mercado difícil; na verdade, ele é um mercado quase inexistente.
Na realidade, o roteirista iniciante costuma ser também o diretor dos próprios filmes.
Isso porque ele depende de leis de incentivo do Governo para que ele possa produzir seus próprios projetos menores. Para então gerar a atenção de outras empresas. Para conseguir maiores verbas.
Para produzir maiores projetos.
PALMIERI: Para você que está ligando o rádio agora, no canal 1.360, eu estou conversando com o escritor e roteirista Raphael Draccon. Raphael: o que é mais fácil? Adaptar um best-seller, ou escrever uma história original para o cinema?
DRACCON: Isso varia; varia bastante de escritor pra escritor.
Eu, particularmente, prefiro histórias originais, mas você vai encontrar roteiristas que se especializam no trabalho de adaptação de obras, ou no trabalho de desenvolvimento de roteiros teatrais, ou no de roteiros só para televisão, que é um trabalho mais industrial, mais rápido, porque depende de uma produção muito maior.
Eu realmente achei que nunca iria adaptar uma obra de outro escritor, mas eu tive de me render à obra do psiquiatra Augusto Cury, que atualmente é um dos escritores mais vendidos do Brasil.
Cury escreveu há alguns anos sua primeira ficção, “O Futuro da Humanidade”, que eu tive a honra de conseguir ser roteirista dessa obra para levá-la para as telas.
PALMIERI: Escrever um romance é muito diferente de se escrever um roteiro?
DRACCON: Um romance é basicamente do escritor. Assim como o roteiro do teatro ele é muito do diálogo, por isso que se diz que o teatro é do ator.
Já no roteiro de cinema, ele vai ser muito mexido, e dificilmente o que foi escrito vai ser exatamente o que vai ser filmado no final. Por isso que se diz que o cinema é do diretor.
O romance tem uma linguagem totalmente própria, onde o escritor pode dar vida à toda sua imaginação, aonde ele tem a liberdade de poder atuar com seu próprio texto quase intacto. Então dificilmente um escritor que tenha passado a vida inteira escrevendo romances, ou crônicas, ou contos, se adapta a forma de escrever do roteiro, que é uma forma mais crua e mais direta.
PALMIERI: Então eu posso dizer que você é um contador de história?
DRACCON: Na verdade, eu “vendo sonhos”.
PALMIERI: E qual a diferença?
DRACCON: O contador de história vai te vender um sonho durante o tempo em que ele te conta aquela história. O maior vendedor de sonhos foi Cristo; que contava parábolas tão simples, mas com conteúdos filosóficos tão complexos.
Então, na verdade, o vendedor de sonhos conta histórias para que as pessoas repensem seus conceitos, e passem a sonhar por vontade própria. Pelo resto da vida.
PALMIERI: Com que prazer, o Musical Classe A recebeu você, Raphael Draccon. Que Deus dê a você muita prosperidade e saúde. Muito obrigado, tenha uma ótima viagem, e até a próxima!
DRACCON: Obrigado, eu agradeço o convite.
FIM DO BLOCO.
Da Série: Frases de Escritores Fantásticos II
Diálogo entre Draccon e Vianco, um mês antes da mesa “A influência do cinema na Literatura Fantástica”, em Julho de 2008 no Fantasticon.
DRACCON: Caramba, o Gaiman vem no Brasil esse ano pra FLIP! E sabe da maior? A mesa dele vai ser na mesma hora da nossa no Fantasticon!
VIANCO: Caraca! Quer dizer que o cara não vai poder assistir a gente???
DRACCON: Uwahahahahaha!
Anno Domini - Casa das Rosas
Mais uma vez em São Paulo, dessa vez sem tanto frio, para um interessantíssimo evento: o lançamento da antologia de contos medievais e fantásticos “Anno Domini”.
Para aqueles que não leram nada sobre isso até agora, trata-se de uma antologia da Andross Editora, em que recebi o convite para ser “convidado de honra” através da simpática escritora e organizadora Helena Gomes.
O evento ocorreu na Casa das Rosas, na Avenida Paulista, e contou com a presença de 36 dos 50 autores do livro. Local espetacular; miolo e capa bem-feitos; coquetel competente (acho; a noite foi tão agitada que quando lembrei de “procurar” por uma taça de… ãhnn… guaraná, o coquetel já tinha encerrado).
Anno Domini foi tudo o que a expectativa prometeu (bom, sempre há a chance de eu estar errado. Talvez ele tenha sido um pouco mais…).
De longe, o mais interessante foi ver as estrelas da festa em ação: observar os autores de Anno Domini exibindo crachás no peito como uma merecida medalha de um soldado que sobrevive à guerra.
Sabem, eu sei que eu e Cláudio Villa éramos os “convidados de honra” ali do projeto, convite feito por já estarmos publicados cada um à sua maneira no mercado editorial, mas, sinceramente, para mim cada um daqueles autores eram estrelas que brilhavam demais.
Alguns talvez por luz própria, alguns talvez pelo conjunto que o momento representava; mas ali, naquela Casa das Rosas, todos brilhavam e vibravam na mesma sintonia devido à egrégora que forma o sentimento que habita o coração de um escritor.
Porque todo ser humano que segura nas mãos um sonho, não o deixa escorrer como grãos de areia. [não mesmo?]. Não, não deixa não. [e por que não?].
Porque se cada grão de areia possui realmente tudo o que pulsa no universo dentro dele, então o que pulsará no coração de quem dá vida a universos que brilham além do que a razão pode explicar?
Eu respondo: éter.
O que eu via naquela Casa eram corações nascidos na poesia do ser humano ordinário que não desiste, e sonha com a realização de feitos extraordinários.
Aqueles eram escritores que tinham em mãos a primeira publicação, mas era muito mais do que isso. Aquele era o momento em que o mundo (ou uma parte do mundo) parava de girar, para não apenas notar suas existências, como fazê-los sentir um pouco o gosto do sucesso do escritor que não desiste.
Não faço idéia de quantos livros assinei nesse sábado, dia 19. Nem de quantas pessoas conversei rapidamente (infelizmente, pelo tempo havia de ser sempre mais rapidamente do que a vontade gostaria), nem para quantas fotos fiz poses (e, provavelmente, saí de olhos fechados! Tenho problemas com máquinas que disparam dois flashes antes do registro na memória digital).
Mas me lembro sim de uma coisa. E me lembro bem.
Me lembro de cada autor que chegava até mim e me pedia um autógrafo, e do olhar que transcendia a compostura, quando eu lhes entregava meu próprio exemplar, e dizia:
“É claro. Mas é assim que você agradece…”.
Alguns poucos; muitos poucos daqueles chegarão até o fim da estrada solo completa (todos têm talento; mas a estrada, infelizmente, exige algo além do escritor sobrevivente), mas isso não tem importância, pois o mundo parou e se tornou mais puro por um momento.
Pois todo universo, real ou fictício, se emociona diante de homens que realizam sonhos, ou se inspiram nesse sonhar.
E todos eles irão sempre se lembrar, seja na carreira de escritor seja na de ser humano, do dia em que o mundo parou por eles. E para eles.
Naquele sábado, eu e Cláudio Villa fomos meros convidados de honra.
Mas cada um daqueles outros 34 autores foram mais, foram muito mais do que isso. Eles foram estrelas. Eles foram dragões.
Dragões divinos. Dragões fantásticos.
Dragões de éter.
Fantasticon 2008, por Roberto de Souza Causo
E como prometido, aqui abaixo está o texto do escritor e crítico Roberto de Souza Causo sobre minha mesa no Fantasticon, ao lado de André Vianco, Vivi Amaral e Alfredo Suppia.
Quem quiser acompanhar a cobertura do evento completo (vale à pena!), pode acessar o texto através do link http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3004240-EI6622,00.html
Enjoy.
Fantasticon 2008
Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
(…)
Então saltei para o painel “A Invasão do Cinema na Literatura Fantástica” (as atividades desta FantastiCon tinham uma sobreposição de meia hora a uma hora, para facilitar esses pulos de uma para a outra). André Vianco, o best-seller do horror nacional, e que tem tentado filmar seus livros Os Sete e Bento, apontou a falta de ousadia do cinema nacional, que tem medo de efeitos especiais. Também disse que os intelectuais condenam se escrever pensando em cinema, mas observou que há autonomia no processo de escrita, que vem primeiro, livrando-o da pecha de subordinado a um meio de maior difusão comercial. Vianco pretende dirigir suas adaptações.
Raphael Draccon, autor do romance de fantasia Dragões do Éter, elogiado por Vianco, é também roteirista de cinema e leitor de roteiros submetidos à produtora de Fernando Meirelles, O2. Para ele, a relação literatura/cinema é natural. Comentou que “os autores clássicos não tiveram concorrência multimídia, ou também teriam pensado em cinema”. Contrariando profissionais como Doc Comparato, que acham que o roteirista está mais próximo do diretor, do que o escritor, Draccon pensa que o roteirista está mais próximo da literatura.
De fala mansa e ponderada, Draccon disse que a maioria dos roteiros que chegam até ele são mal escritos e esquemáticos, mas informou que um dos que passaram por ele está rodando em Hollywood. Enfim, defendeu que “a geração de hoje é visual - ela escreve vendo um filme”, e não necessariamente tendo o cinema como um segundo passo. Como roteirizar está próximo da literatura, é contato com literatura que os novatos devem priorizar. Mais da sua fala está no blog de Draccon: http://www.raphaeldraccon.com/blog.
Vivi Amaral falou da Mostra Curta Fantástico (http://www.mostracurtafantastico.com.br), que ela ajuda a coordenar, e concorda que o cinema sofre de preconceito sobre o aspecto comercial. Conhece produções amadoras de FC e horror, a filmes nacionais feitos com imagens de computador perfeitas, em parte por causa da qualidade profissional encontrada no meio publicitário. Perante a pergunta de se a atual vibração na área poderá sair de moda, ela disse que “tudo é cíclico”, mas que não dá sinais de arrefecer.
Alfredo Suppia, doutor em cinema pela UNICAMP e especialista em cinema brasileiro de FC, também enxerga parentesco entre a sétima arte e a literatura; mencionou que, por exemplo, o cinema americano clássico também nasce da adaptação literária. “Verbo e imagem estão mais ligados do que pensamos”, disse. Concorda com Vianco, de que o cinema brasileiro é muito tímido, e notou que os argentinos são mais ousados. Na questão dos efeitos especiais como limitadores, pergunta se “não seria uma alternativa investir mais na criatividade”. Deu exemplos de filmes de FC e horror menos dependentes dos efeitos especiais, entre eles o curta nacional Barbosa. Para ele, “há muita criatividade na FC brasileira”, faltando mesmo a atenção dos produtores. Suppia também tem fala mansa e nenhum ranço acadêmico.
Enfim, foi uma mesa de participações sólidas, mas um tanto truncada pelo atraso inicial. Achei que as de Amaral e Draccon (que claramente havia preparado a sua comunicação antes) acabaram abreviadas.
Da Série: Frases de Escritores Fantásticos
(diálogo entre Raphael Draccon e André Vianco)
DRACCON: Sabe, eu não entendo esse tal de “bloqueio criativo”. Nunca soube que negócio é esse!
VIANCO: Eu já! Já passei umas duas semanas por isso…
DRACCON: Isso não é “bloqueio criativo”, cacete! Isso são “férias”!
VIANCO: Uwahahahaha!
São Paulo e o Fantasticon 2008 (e uma noite com André Vianco e Starbucks Coffee)
Madrugada de terça-feira, dois dias depois da experiência de participar do Fantasticon 2008; o evento de literatura fantástica mais importante do país, e da cidade que merece o mesmo adjetivo.
Capítulo I - Congelando (em) São Paulo
Sabem, uma vez já me perguntei de onde André Vianco tirou a idéia de um maldito vampiro que “congela o tempo” (se você não leu “Os Sete”, isso é um spoiler! Logo, passe o mouse por conta e risco).
O interessante é que chegar em São Paulo às 6 da manhã já responde essa dúvida. Afinal, a resposta era: do fato dele ser paulistano. Descobri que, se fosse eu também um escritor de São Paulo, provavelmente criaria um personagem que seria capaz de fazer a mesma coisa…
Batendo o queixo, tremendo um pouco, e agradecendo por um pouco de luz de sol (o que não impede de se permanecer encasacado nessa cidade incrível), meu agente me levou ao Colégio Arquidiocesano no horário próximo do meio-dia.
O grande motivo: uma mesa envolvendo como tema a “invasão do cinema na literatura fantástica”.
Ao lado de feras do naipe de meu já citado amigo André Vianco, a produtora Vivi Amaral, da Fy Cow, e o mestre em multimeios Alfredo Suppia (que, por sinal, acabou se mostrando muito mais jovem do que eu imaginava a princípio), debatemos os mais diversos assuntos envolvendo cinema e literatura.
Sobre a mesa em si, ela foi ótima. Como ela começou “um pouco” atrasada, acabou que, quando terminou, a impressão que se tinha era de que poderia durar mais uma hora inteira, pois todos os quatro ainda teriam algo a dizer.
Falamos sobre literatura x cinema; sobre profundidade x conflito dos personagens; sobre modismo na fantasia; sobre falta de ousadia no cinema fantástico brasileiro; e por aí vai. Foi um quadrangular muito interessante; Sílvio Alexandre foi muito feliz ao montar tal mesa.
A propósito: Sílvio Alexandre é um cara para quem se tem de tirar o chapéu. Organizar um evento desses é uma iniciativa fabulosa, e, como se já não bastasse, o sujeito ainda é uma simpatia e não pára de ter idéia em prol da divulgação desse tipo de literatura.
Como escritor o mais interessante desses eventos é conhecer pessoas que normalmente nós conhecemos apenas pelos trabalhos delas, ou pela troca de mensagens eletrônicas.
Logo, poder conhecer pessoalmente dragões (quando se fala em fantasia, isso é um elogio; em qualquer outra circunstância, não…) do mercado editorial fantástico como Helena Gomes, Rosana Rios (que citou “Dragões de Éter” em sua palestra, e já fez meu dia), Cláudio Villa, Nazarethe Fonseca, Nélson Magrini e Roberto de Souza Causo, não tem preço.
Aliás, a presença de Causo me foi uma grata surpresa, afinal, não apenas o citei, como havia levado impresso uma de suas críticas para usar um parágrafo de base para um argumento sobre escritores que não gostam de ler (e escrever uma frase dessas é ainda mais surreal do que debater sobre).
Outro ponto interessante da presença de Causo, é que ele provavelmente vai fazer um resumo do que foi a mesa e seus temas debatidos de uma forma muito mais competente do que eu (e quando ele o fizer, coloco o link aqui no blog), o que me permite falar sobre os bastidores daquele sábado sem peso na consciência.
Sem peso na consciência.
Capítulo II - Sabres de Luz
Estar no Encontro Internacional de RPG significa cruzar com cosplayers de Darth Vader, Smoke (do Mortal Kombat), piratas, cavaleiros-autores vestidos com armaduras vendendo livros de fantasia e todos (sim, sim: todos) os personagens de Naruto. E falo desde aqueles que ainda devem estar vivos; até os que não sobreviveram até o fim (acho eu; hoje em dia a gente nunca sabe o que significa exatamente “morrer” em animes e comics da DC, não é mesmo?).

(é… coisas assim são normais no Encontro Internacional de RPG…)
Você vê pessoas se digladiando com espadas de espuma em uma imenso pátio colegial, enquanto come tranqüilamente uma coxinha com guaraná natural com a naturalidade de um inspetor sonolento, que vê crianças brincando de pique à espera da sirene que as mande de volta às salas de aula.
E você vê centenas de pessoas empolgadas de preto (fico imaginando o que aconteceria se alguém vestido, por exemplo, de vermelho tentasse se sentar ali! Acho que teriam de jogar um D20 para saber…) sentadas sobre mesas que sustentam egrégoras de formas-pensamento que moldam mundos de éter fantásticos demais para a razão compreender, e onde apenas a imaginação de cada uma delas é capaz de tocar. E manter.
Se você for um escritor, e tiver algum livro publicado (mesmo que da forma mais independente), você provavelmente verá seu livro em algum estande armado (e provavelmente será o da Devir), e com sorte talvez algum leitor até lhe reconheça e peça seu autógrafo.
Talvez o mesmo leitor ainda queira levar uma foto, elogiar ou reclamar de alguma passagem da história de vocês (ah, você achava que depois de publicada uma história ainda pertencia somente ao autor? Santa inocência…).
Entretanto, por mais que um escritor de fantasia nacional tenha um breve momento de rockstar de 15 minutos como se fosse um escritor na FLIP (obviamente, com exceção de Gaiman que é rockstar 24 horas), você sabe que não é a estrela daquele pátio.
Compreensível; não há como ser estrela quando personagens já maiores que seus criadores transitam de um lado a outro com a maior naturalidade do mundo, e posam para fotos fazendo poses de perfomances dignas de filmes B (lembra aquela questão de metáforas que funcionam como “elogios” de acordo com circunstâncias?).
E não podemos reclamar realmente desse assédio curioso, pois mesmo nós, que deveríamos ser criadores, de vez em quando sentimos vontade de levar uma foto de recordação como verdadeiros tietes de tais criaturas.
Afinal, é um fato: não, não dá.
Não dá para competir com Darth Vader.
Capítulo III - Vendendo Sonhos e(m) Starbucks Coffees
Após o Fantasticon, depois de um almoço em uma lotada praça de alimentação do Shopping Santa Cruz, entupida de garotos (e meninas) de preto, segui para uma noite de autógrafos do livro “O Vendedor de Sonhos”, do ultra-mega-best-seller Augusto Cury (nós temos o mesmo agente), na Saraiva do Morumbi Shopping.
Curiosidade: quando adaptei o romance “O Futuro da Humanidade”, do próprio Cury, para o cinema em um filme que talvez um dia exista, ele havia me dito que achava melhor modificar o título do roteiro. Eu sugeri “O Vendedor de Sonhos”, e Cury fez uma expressão pensativa e satisfeita, de quem havia gostado muito do título.
Pelo visto, ele gostou realmente do título.
Encontrei alguns Highlanders da Planeta, com quem pude discutir alguns assuntos editoriais, mas então em seguida enfim entendi porque o destino havia me levado até lá feito uma folha seca solta no roteiro de Forrest Gump: para que meu agente me apresentasse ao Starbucks Coffee.
Sabe, conhecer um local que serve cafés gelados misturados com chocolate, e com pedaços de chocolate dentro, é capaz de fazer um carioca que não gosta de café querer passar frio novamente em SP, apenas para refazer a experiência.
Cheguei à conclusão de que se Adão ficou tão entusiasmado com uma mísera maçã, se uma serpente tivesse lhe oferecido um copo “Tall” de Starbuck Coffee como pecado original, ele teria inaugurado ali mesmo o pecado da orgia.
E Eva que se preparasse, afinal, com tanta cafeína no sangue, e sem televisão a cabo, ela teria de ter bastante energia quando o sol se fosse…
Capítulo IV - O Turno da Noite
E a noite ainda teve fôlego para uma volta pela noite paulistana a bordo do possante de Vianco. Era a hora de conhecer a metrópole pelos olhos de um de seus escritores mais clássicos.
É claro que ele quis me levar a Osasco, e é claro que ele quis me levar ao “Teatro dos Vampiros” (e se você vai a São Paulo e pretende viver eternamente, é melhor ser iniciado nos rituais vampíricos por André Vianco, não?).
Sabe, ver São Paulo à noite, quando o sol resolve descansar, e as luzes dos postes, dos prédios e dos monumentos são acesas (principalmente as coloridas, das blitzes animadas com a “lei seca”), é uma beleza que cativa e marca a memória.
A arquitetura daquele lugar tem quase poesia por detrás de seus grilhões de ferro e suas vidraças escurecidas. Uma poesia que pode melhor ser vista à noite quando as estradas estão livres, e o trânsito não está engarrafado à espera de uma tempestade que economize gasolina e transporte os carros de lugar.
O Rio de Janeiro tem sua beleza calcada na beleza natural de suas praias, lagoas, e arborização. São Paulo, porém, tem sua beleza exatamente na urbanização que explode no rosto de quem a vê por fora, e sente a mesma sensação do coração que pulsa diante da tecnologia e do progresso que assusta. E fascina.
Ah, sim! E terminamos essa noite em um bar de Pinheiros, à base de saladas e carpaccios servidos com cerveja escura e coca zero.
Do lado de fora, no meio da rua, cinco meninas animadas, expremidas dentro de uma Fiat, nos avistaram lá na janela do segundo andar, e começaram a buzinar e a gritar coisas surreais do tipo: “olha, olha lá no segundo andar!” e “uuuuh, bonitão!”. Vianco insistiu que aquelas reações todas eram para mim.
Eu acreditei.
Afinal, em uma cidade onde vampiros fazem coisas nas avenidas e cafés gelados são servidos com pedaços de chocolate, tudo; tudo parece realmente muito mais fantástico…
Conto “Lembranças de Tormenta” (Download)

Em um post anterior comentei sobre uma ligação adolescente com o cenário de Tormenta. Também comentei que naquele tempo havia escrito o primeiro conto da Lista Tormenta, que J.M. Trevisan, um dos autores originais do cenário, pensou em reescrever e assinar como co-parceria.
O tempo passou, e acabou que, quase dez anos depois, com muito mais experiência, reescrevi eu mesmo o conto, e estou disponibilizando aqui para download para aqueles que gostem do cenário, ou sintam curiosidade.
No conto, acompanhamos um personagem que eu nunca gostei, Arkam Braço-Metálico, líder do Protetorado do Reino, uma “tropa de elite” do Reinado de Tormenta, que, por sinal, eu também nunca simpatizei com nenhum dos personagens integrantes, por considerá-los muito presos aos arquétipos do RPG (e aos clichês desses arquétipos), sem um diferencial que lhes evidencie carisma.
“E por que diabos então você escreveu um conto com eles?” - o narrador de “Dragões de Éter” poderia até perguntar.
E eu responderia: “exatamente por isso”. Afinal, o grande desafio de um “fanfiction” está exatamente em escrever uma história que seu autor goste, mas envolvendo personagens que antes não lhe eram simpáticos, mas que diante de uma outra abordagem, acabam por se tornar.
Para quem nunca ouviu falar, “Tormenta” conta a história de Arton, um mundo de éter high fantasy, que, de repente, é assombrada pela Tormenta, uma tempestade rubra com demônios e partes de um plano inferior que desafiam a sanidade, e destrói a nação de Tamu-ra, espécie de “Japão artoniano”, e parece aos poucos se preparar para avançar pelo resto do continente, além das áreas já tomadas que recebem o nome de “Áreas de Tormenta”.
Em “Lembranças de Tormenta”, o engomadinho líder do Protetorado do Reinado, Arkam Braço-Metálico, precisa da ajuda de um antigo líder aposentado da instituição, que mais parece um sobrevivente carrancudo da nossa II Guerra Mundial, e vai até a cidade de Gorendill tentar convencê-lo.
Mas o embate de ideologia dos dois vai longe, tocando em diálogos afiados que debatem questões obscuras envolvendo o poderoso Imperador-rei Thormy, e até mesmo piadas com o nome de um famoso asilo da DC Comics. Fora que Dredd Murdock diz para o personagem de Arkam tudo o que eu gostaria de dizer se tivesse oportunidade…
Enjoy.
Lembranças de Tormenta - Raphael Draccon (55k)
Anno Domini - Dia 19/07









